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Esta semana está rolando na internet uma petição nacional para que a rede Subway ofereça, no Brasil, opções de lanches sem nada de origem animal (veja aqui).

Eu acho ótimo. Pensando no melhor cenário possível, esse tipo de campanha vai obrigar as grandes redes a oferecer opções sem nada de origem animal, e isso vai levar mais pessoas a conhecerem o veganismo e mais animais serão salvos da indústria. Se as opções veganas fizerem sucesso, pode ser que as redes de fast-food aumentem gradativamente as opções veganas até que, a longo prazo, passem a não mais trabalhar com produtos de origem animal. Pronto, com uma tacada só vamos “veganizar”, ainda que não imediatamente, empresas mundiais.

Claro que, dentro dessa lógica, há várias coisas a serem discutidas. Primeiro as implicações éticas desse tipo de decisão (poderia chamar de vegano um lanche sem nada de origem animal feito no McDonalds?). Outra é se é realmente possível uma grande rede parar de vender produtos de origem animal, ainda que pensando a longo prazo. De todo modo, não quero entrar nisso aqui. Apóio as petições porque o objetivo final é algo que todos nós ativistas veganos desejamos, a abolição ou pelo menos diminuição imediata do uso de qualquer produto de origem animal.

O problema é que “faltou combinar com os russos”. Analisando o que aconteceu em outros países, e entendendo como funcionam essas grandes redes, é muito difícil que uma campanha como essa dê certo. Não sou contra, acho que tem de fazer, mas precisamos também fazer o nosso dever de casa. Temos que começar de baixo pra cima.

As redes vão colocar opções veganas quando houver indicadores que garantam que elas terão lucro. É simples assim. Uma grande empresa, no geral, não assume riscos desnecessários. Sendo assim, a melhor maneira de obrigarmos as grandes empresas a oferecer opções veganas é apoiarmos pequenos modelos de negócios 100% veganos. No capitalismo, a concorrência é o que gera inovação, e não o contrário. Enquanto eles não sentirem no bolso que há negócios veganos dando certo, eles não vão oferecer novas opções.

Vejamos por exemplo o caso da “Just Mayo”, uma maionese vegana lançada nos Estados Unidos há alguns meses por uma pequena empresa. Ela fez tanto sucesso que a Hellmann’s entrou na justiça para que a empresa mudasse o seu nome, sob o argumento de que “maionese só poderia ser chamada de maionese se tivesse ovo na receita”. A justiça felizmente deu ganho de causa à Hampton Creek (empresa da maionese vegana). O que a Hellmann’s fez? LANÇOU UMA MAIONESE VEGANA. Porque ela viu que ia ficar para trás no mercado. Hipocrisia ou não, o surgimento de um concorrente à altura motivou a empresa a apresentar um produto similar.

Citando um exemplo local: quando abriu a Faz Bem, a Casa Vegana de Brasília, não havia nada vegano nas proximidades. Aliás, não havia nenhum lugar 100% vegano na cidade. Em alguns meses, o Café da esquina começou a servir leite vegetal, a pastelaria ali do lado começou a fazer sabores veganos, a padaria começou a trabalhar com pão sem leite e ovos e surgiram duas lojas de açaí/sucos naturais. Será que foi coincidência? Sem querer supervalorizar a nossa pequena casa, o fato é que o surgimento de iniciativas veganas é como uma onda que se espalha pela cidade e não é por acaso que hoje em quase qualquer grande restaurante de Brasília há uma opção vegana.

Há anos são feitas campanhas para que o Subway crie opções veganas. Campanhas nacionais organizadas por diversas entidades. Enquanto isso, a cada dia surgem novas micro-empresas veganas e QUASE tudo que eu vejo nas comunidades online é: “Ah gente, essa empresa é ótima mas é tão caro”, ou “Pessoal, queria um lugar para levar alguns amigos, tem que ter opção vegana mas também carne pra eles”. É esse o apoio que vocês dão para quem escolhe trabalhar apenas com produtos livres de origem animal?

Quem decide, hoje, abrir um negócio 100% vegano, não é um empresário, não é um empreendedor, é um ativista. É muito mais negócio, financeiramente falando, abrir uma lojinha de “produtos naturais” com queijo, leite e outros produtos que alcancem um público mais amplo. E por mais que haja um aumento crescente na busca por alimentos mais saudáveis e sem origem animal, este é um mercado muito difícil, com nível de investimento inicial altíssimo e margem de lucro baixa. Os industrializados, no geral, não são caros devido ao lucro dos revendedores, mas sim porque já saem caros da fábrica e porque o frete no Brasil é um roubo. Não é por acaso que os produtos veganos demoram a chegar nos supermercados, se fosse assim tão lucrativo estaria bombando. Uma mercadoria que é feita em São Paulo chega em outros estados até 5 reais mais cara.

Na semana que vem farei um texto especificamente sobre os preços dos industrializados veganos e como podemos ajudar a barateá-los (me cobrem!). O que não dá é acharmos que tudo vai ser resolvido com petição na internet. Assine a petição, leva só alguns segundos, mas vamos pra rua! Vamos levar nossos amigos e familiares para conhecer as lojas veganas da nossa região, e vamos apoiar lugares que já oferecem opções veganas. Procurem grupos no facebook, criem suas próprias receitas, abre sua própria empresa (criar um MEI, por incrível que pareça, é muito simples). Não podemos esperar que empresas ou governantes atendam nossas reivindicações. Temos que EXIGÍ-LAS!

Se o Subway não quer oferecer opção vegana, façamos nosso próprio Subway. Só que mais saudável, mais gostoso e – o que todo mundo “esquece” – sem uso de trabalho escravo, 100% livre de produtos de origem animal e empregando muito mais pessoas.

Por Thiago Vilela, jornalista, sócio da Faz Bem e vegano há 8 anos.

 

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http://reporterbrasil.org.br/2012/09/quot-moendo-gente-quot-mostra-as-condicoes-de-trabalho-nos-frigorificos-do-brasil/
https://portal.mpt.mp.br/wps/portal/portal_mpt/subway_pratica_assedio_moral

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